A nova caixa da Criterion, “The Complete Kubrick”, reúne 16 filmes e materiais complementares, mas montá-la exigiu mais do que restaurar as obras mais conhecidas do diretor. O produtor e arquivista Michael Chaiken disse à IndieWire que a equipe teve de considerar o que significava “completo” ao adaptar os filmes de Kubrick para formatos modernos de vídeo doméstico que ele nunca conheceu em vida.
O projeto começou em 2024 com o trabalho em “De Olhos Bem Fechados”. A Criterion já tinha uma relação próxima com Kubrick por causa de seus lançamentos em laserdisc, e a Warner Bros. havia preservado os materiais originais de seus cinco últimos filmes. Foi mais difícil reunir as produções independentes anteriores, e questões de direitos quase impediram o lançamento de toda a coleção.
Um dos desafios foi “The Seafarers”, documentário de 1953 feito por Kubrick para a Seafarers International Union. A equipe teve de determinar quem detinha os direitos antes de incluí-lo. Outra adição importante foi a versão original de 12 minutos de “Day of the Fight”, documentário de Kubrick de 1951. A versão lançada pela RKO havia sido remontada, com cenas adicionais e alterações na narração e na música. Encontrar os elementos originais permitiu à Criterion apresentar a montagem de Kubrick ao lado da versão da RKO.
A coleção também inclui as duas versões de “O Iluminado”. Kubrick encurtou o filme em 25 minutos para seu lançamento internacional em 1980, mas essa montagem não havia sido disponibilizada nos Estados Unidos. Chaiken disse que a versão mais curta era a montagem final de Kubrick e argumentou que uma coleção que pretendesse abranger sua obra precisava incluí-la. A Criterion manteve o comentário original de Garrett Brown para a versão dos EUA e encomendou um novo comentário para a montagem internacional ao cineasta Lee Unkrich.
O som trouxe outro tipo de desafio. Kubrick preferia o mono e dizia aos colaboradores que preferia um bom mono a um estéreo ruim. A Criterion oferece mixagens 5.1, mas define a versão mono como padrão e criou novas masterizações a partir dos materiais mono originais. Em “Nascido para Matar”, a equipe teve dificuldade para identificar a mixagem correta exibida nos cinemas. O montador Nigel Galt ajudou a confirmá-la ao observar que “Paint It Black” tocava mais rápido durante os créditos finais originais. A nova coleção preserva essa versão da música.
A equipe também precisou adaptar os filmes para 4K e HDR sem fazê-los parecer diferentes das intenções de Kubrick. Chaiken disse que uma imagem mais nítida pode revelar detalhes nas sombras que o diretor talvez não quisesse que o público visse. Trabalhando com Larry Smith, diretor de fotografia de “De Olhos Bem Fechados”, a Warner Archives e outros colaboradores, a Criterion comparou várias versões das transferências. Em muitos filmes, o processo envolveu reduzir o HDR e escolher uma gradação de cores mais quente, com aparência mais próxima da película.
A pesquisa sobre o trabalho anterior de Kubrick com vídeo doméstico ajudou a orientar essas decisões. Chaiken conversou com Maria Palazzola, que supervisionou restaurações e transferências para a Criterion nos anos 1980 e 1990 e trabalhou diretamente com Kubrick. Ela lhe disse que o diretor compreendia as limitações do vídeo e queria que seus filmes tivessem a melhor aparência possível dentro delas. Em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, Kubrick se concentrou em garantir que a projeção frontal na sequência “A Aurora do Homem” não se refletisse nos olhos dos símios e em evitar que o rolo final da cena do boudoir francês ficasse claro demais.
A artista visual Drusilla Adeline, também conhecida como Sister Hyde, projetou a caixa em torno da ideia de “Kubrick trabalhando”. O layout da coleção separa os filmes com abas e pôsteres e esclarece quais versões, faixas de áudio e extras estão incluídos. “The Complete Kubrick” já está disponível.
Fontes: IndieWire.